quarta-feira, 25 de setembro de 2013



Sempre gostei de olhos grandes. Achei que eles enxergassem melhor a alma. Achei que eles me despissem com mais eficácia depois de algumas taças de vinho. Achei que eles fitassem melhor os meus, que também são bem grandes. Achei que eles deixassem transparecer melhor os vícios e virtudes do dono. Sabe aqueles requisitos pra lá de babacas que a gente coloca na nossa lista de características da pessoa ideal? Então, esse era só um – e o principal – deles. Eu também sempre disse gostar de caras altos – com pelo menos uma régua Desetec a mais do que eu. E magrelos – cujas costelas eu conseguisse ver enquanto estivéssemos pelados na cama depois daquele sexozinho delícia. E barbados – com pelos suficientemente viris para arrepiar o meu pescoço. E bocudos, e donos de olheiras que demonstrassem o cansaço, e branquelinhos, e tatuados.

Hoje faço uma recapitulação na lista de homens que realmente mexeram com o meu coração. Vejo que a grande maioria deles realmente tinha barba. E bocão. E eram significativamente mais altos do que eu – porque mais baixo, só se for anão. Alguns eram divinamente magrelos; outros, deliciosamente carnudinhos. Alguns eram realmente branquelinhos; outros, maravilhosamente mulatos. Cruzei também com algumas olheiras e tatuagens por aí. Mas nenhum, absolutamente nenhum dos homens que viraram a minha cabeça tinha olhos grandes. Todos eles eram donos de olhinhos simpaticamente pequenos – a ponto de eu ter que perguntar para o meu primeiro (e único) namorado se ele, com aquele campo de visão tão reduzido, realmente enxergava o mundo como eu. E aí vem a questão que tira o sono dos racionalistas do coração: se eu nunca me apaixonei por um homem de olhos grandes, em qual referencial eu me baseava para anunciá-los como minha preferência?

Psicólogos dirão que Freud explica –ah, o pai dela deve ter olhos grandes. Realmente tem. Céticos dirão que não é possível: pelo menos meu primeiro amor deve ter tido olhos grandes – e se eu disser que não lembro se meu primeiro amor foi Cauê ou se foi Rodrigo? E que nenhum deles tinha olhos grandes? Românticos se apropriarão de uma canção sertaneja dos anos 90 e dirão queessas coisas de paixão não têm explicação. Eu, como boa apaixonada – pela vida,  por você –tô com eles e não abro. O grande erro da imensa maioria dos corações é querer racionalizar tudo. É acreditar naquela balela da matemática dos relacionamentos, que insere dois corações numa ~sábia~ fórmula e defeca algum conhecimento sobre somar e subtrair, multiplicar e dividir, completar e transbordar. É achar que a tal da química, aquela interação louca que acontece entre algumas pessoas, tem uma fórmula pré-determinada, algo como um anel benzênico que serve de aliança de compromisso a todos os dedos. É esquecer que a base de todo e qualquer relacionamento é meramente humana, e que se um não quer, dois não transam. É ignorar que não há receita de bolo para um relacionamento feliz e duradouro e que ainda não inventaram fermento que fizesse crescer o coração.



Ah, a saudade… Há dias em que ela chega, puxa uma cadeira e te faz viajar em um mar de lembranças que te cria a doce ilusão de que você tinha a pessoa perfeita ao seu lado. E é nesse momento que você se sente mal, sente o cheiro do perfume, lembra a companhia diária que hoje não se faz presente, a voz, o sorriso… E tudo isso remete à ideia de que você nunca mais será feliz.

Os dias se passaram, como naturalmente havia de ser. Já faz quase um mês, mas você ainda segue preso(a) àquela data marcante que te faz sentir um grande frio na barriga e a sensação que conhecemos por “perder o chão”. Desde então, várias coisas perderam o sentido, e estar só virou algo torturante. Já não se tem mais a quem contar como foi o dia ou alguém para convidar para sair, mas o pensamento continua nele(a). As coisas dele(a) ainda estão na sua casa, e por um momento de carência, você acessa a lixeira de seu computador e restaura aquela foto dos dois. Para completar a fossa, seu player toca aquela canção que parece ter sido feita para vocês dois.

Cada um sabe a dor de ser o que é, mas quando alguém que amamos decide que nos deixar é a melhor opção, a saudade se torna um padrão para todos. Todos sentem saudade: saudade de um amigo, de um momento, de um lugar. Mas quando se sente saudade de amor, a dor parece ser umas três vezes maior. E isso se deve, basicamente, a duas coisas: à posse e ao costume. Eu tinha um(a) parceiro(a), eu tinha um(a) namorado(a), eu tinha um alguém – era meu (minha), e isso é indiscutível -, assim como eu tinha o costume de ligar e perguntar onde ele(a) queria comer, eu tinha o costume de mandar SMS pela manhã, eu tinha o costume de sair com aquela pessoa aos fins de semana. Ele(a) costumava ser meu (minha), mas hoje, eu estou só.

A grande verdade é que ninguém é dono de ninguém, e somente o tempo é capaz de te fazer perceber que talvez tenha sido melhor vocês dois se separem. Nenhum relacionamento acaba do dia para a noite – talvez os motivos floresçam com mais intensidade nos momentos anteriores à separação, mas eu costumo dizer que é tudo em cadeia. Ele já não ligava para ela com tanta frequência, ela já não costumava relatar seu dia inteirinho para ele, o número da amiga dele se destacava mais nas chamadas recebidas, enquanto o da namorada somente aparecia nas não atendidas. Os SMSs de carinho sumiram, e os dias (semanas) sem se falar não remetiam à saudade de que falo aqui. A dor, a sensação de tristeza, de não conseguir ir aos lugares aos quais vocês iam juntos estará com você sempre que você estiver sozinho, assim como a aceleração do coração e o frio da barriga que aparecem quando você reencontra seu amor.

E aí, meu amigo, vai de cada um. Ódio, tristeza, medo, ou qualquer outro sentimento é gerado pela necessidade de esquecer, de não se sentir bem ao estar perto de quem você queria ter ao lado durante a vida toda. Por fim, o tempo mostra que só nos resta uma opção: abrir o coração de vez e permitir que novos amores venham e troquem esta saudade pela vontade, aquela velha vontade de estar junto, de contar como foi o seu dia, de ligar, mandar SMS de manhã, de dividir sonhos. Afinal, se tu não quer, meu bem, tem quem queira.


Garganta fechada, estômago embrulhado, mãos suadas, falta de apetite, insônia. Um médico ficaria preocupado com tais sintomas, afinal, pode ser uma nova gripe, um novo vírus. E é. De certa forma. As unhas roídas, a carne dos dedos sangrando, derramando em cada gota desse sangue amargo um resquício da angústia que desola milhões todos os dias. Ah, o poder de um telefonema não atendido, de um SMS não respondido, de um sorriso não correspondido. É devastante. Pessoas convivem com essa bomba relógio diariamente, esse tic tac que não te abandona nem em um show barulhento. E por mais humano e natural que seja ficar nervoso, de vez em quando, é preciso lembrar que essa adrenalina, essa fogueira na barriga, precisa uma hora se apagar.

A vida é cheia de pessoas. Ser gente é assim mesmo, se relacionar. A gente começa desde cedo a ter contato, a depender do outro. Quando crianças, passamos de mão em mão, sem saber andar. Nossos primeiros grunhidos são emitidos na ânsia de dizer algo. Porque sempre queremos dizer algo a alguém. Eis eu aqui, dizendo algo a alguém. E esperamos, em troca, uma resposta. Qualquer que seja. Mas não somos preparados para sermos ignorados. Não somos instruídos a encarar nosso próprio silêncio, a nos olharmos de cara lavada no espelho do banheiro às 3 da manhã. E principalmente, não somos ensinados a ser autossuficientes.

Que fique claro, de antemão, que não se trata de não contar com ninguém. Não se trata de ser sozinho. Mas sim de, se for o caso, conseguir viver sozinho, em paz. Que seja possível tocar a vida após ser ignorado, chutado, trocado. É assim mesmo, passa no final das contas. E, por mais clichê que seja, a vida sempre traz algo melhor depois. Nada é insubstituível. Nada é maior que a sua paz, que a sua satisfação consigo mesmo. E se alguém está tirando seu sono, sua fome, sua energia, aproveite essa “tiração” de coisas e tire essa pessoa da sua vida. Não vale a pena sofrer. É óbvio que a gente sofre, chora, é inevitável. Mas não se permita passar muito tempo assim. Não é certo olhar para trás e se lembrar somente dos momentos de dor. Não é certo que uma pessoa tenha importância tal na sua vida, que uma ligação não atendida faça com que você perca todo o seu dia. Seu bem estar agradece, e seu coração também.

Então tire o dia pra fazer o que você gosta, pra se conhecer melhor. Tome um banho quente, passe aquela loção cheirosa no corpo, vista aquela roupa leve e que te faz sentir bem, desligue o celular e saia. Permita-se ficar só, ouvindo os sons da cidade, vá pra um lugar remoto, admire a paisagem e contemple o mundo, contemple a sua paz. Olhe para imensidão e se enxergue como só mais um ponto nesse universo gigantesco. Depois de se localizar, enxergue a sua dor como sendo menor do que você e, se você é pequeno perto do mundo, imagina a sua dor. Então você vai ver que nada é tão angustiante assim. Depois levante-se e experimente se sentar em uma mesa de bar, em uma cafeteria, sem ninguém. Pegar o cardápio e poder escolher o que quiser, sem se preocupar com o tempo para analisar as possibilidades. Ninguém vai estar esperando sua escolha. Só depende de você. Com calma, deguste o que pedir. Sinta os sabores. Sem olhar o relógio, sem se preocupar com a hora marcada. Seu compromisso maior tem de ser sempre com você. A paz interior é o bem mais precioso que você pode cultivar. E por mais que o mundo seja cheio de estímulos, às vezes, é preciso desacelerar. Deixe essa bomba de anseios, medos, carências e neuroses que está morando em você explodir de uma vez só. E com o perdão da paráfrase daquela canção do Gil, talvez essa bomba sobre você faça nascer um você de paz.


 A bossa nova tocando no rádio naquela manhã me lembrou do calor no peito que eu sentia toda vez que encontrava certo namoradinho de adolescência que eu tinha. Não era nem a presença dele em si, e nem as suas feições que não eram as mais atraentes. Era a paz que me invadia por dentro cada vez que ele me olhava nos olhos e perguntava se eu tinha dormido bem à noite. Ele era o rei dos pequenos requintes de delicadeza, como o bombom em cima do caderno de matemática, a mensagem desejando boa prova e, claro, o olhar, aquele cativo e carinhoso de todo dia que fazia meu coração ceder. Não eram os gestos em si, era a forma como aquilo tudo enchia meu copo até a borda de tudo que eu precisava naquele momento, a paz ou a tormenta. Nosso namoro não durou muito, mas deste dia em diante, passei a abraçar na minha vida pessoas assim, capazes de construir sorrisos sinceros na alma da gente. Pessoas bem especiais, basicamente encantadoras.Pessoas que nos fazem sentir especiais.

Descobri que o tal “borogodó”, indispensável em qualquer relacionamento que se preze, está fundamentado no encanto. Não é no rostinho de boneca, no presente de natal caríssimo, muito menos no abdômen sarado. Encanto mesmo vem de dentro. Gente que faz nosso coração gargalhar, que abraça quentinho colando o rosto, prepara o chá no fim de semana de gripe, que ri de si mesmo, cumprimenta o porteiro, que respeita o momento, o tempo, o vento. Gente que muitas vezes não sabe por qual bifurcação do caminho você veio, que tipo de bagagem você vem trazendo, mas tem certeza de que dedicação e respeito fazem parte do alicerce de qualquer relação, seja ela amorosa ou não. Gente que te basta.

Não sei dizer se o mundo anda carente de pessoas desse tipo ou se falta leveza para se permitir encantar. Existem hoje aproximadamente 7 bilhões de pessoas no mundo, e ainda assim minha vizinha não encontra uma companhia bacana para partilhar seu passeio no parque aos domingos.Ainda não encontrei alguém especial, ela diz suspirando. Sua ânsia encontra uma variedade de suspiros similares ao longo do planeta neste momento, e olhando pra ela, penso como ainda pode existir tanta gente solitária. O mantra do livro de cabeceira diz que quando a gente não sabe o que procura, não sabe reconhecer quando encontra. Será que não sabe mesmo ou estamos vivendo nossos dias com os olhares errados?

É o tal do enxergar com os olhos da face e não da alma. Tocar com a ponta dos dedos em vez de se permitir uma entrega completa, dessas que abraçam o todo e mudam a vida da gente. Porque beleza tem-se aos montes, encaixe de beijo na boca é fácil e se aprende; difícil mesmo é tirar o ar quando se vê. Complicado mesmo é ser apenas você para o outro, sem máscaras, maquiagens, rodeios, salto alto, camisa de marca, vodka na mesa da balada, foto no Facebook ou carro importado e, ainda assim, a sua essência bastar para o bem-estar do parceiro. Estas são as pessoas especiais: aquelas que sabem conceder seu encanto e aquelas que sabem reconhecer essa dádiva. Porque as pessoas especiais sabem pra quem aparecem. Tem que existir a sorte de reciprocidade e merecimento. Tem que saber enxergar além daquilo que a genética e o statussocial te permitem ver. Porque amor é assim, acontece ou não, mas se nosso coração está distraído com os atrativos “errados”, o acaso passa e a gente nem percebe. Este é o segredo daquele casal da faculdade que, aos olhos dos outros, pode parecer tão pouco convencional. Mais que a resposta para os desejos um do outro, eles são calma, aconchego e paz depois de uma semana de trabalho. São parceiros, amantes e amados; são especiais entre si, para si e só.

Sobre o meu namoradinho da adolescência, bom, o amor se foi, ele também, mas aquele sentimento de plenitude que o olhar zeloso dele provocava… Esse não só permaneceu como também se repetiu algumas outras vezes pelo caminho. Porque uma das delícias da vida é ter a oportunidade de esbarrar em várias pessoas especiais ao longo da travessia. Se o campo for florido, os sorrisos sinceros, os abraços apertados e os sentimentos genuínos, cedo ou tarde, um beija-flor pousa por ali e, dentre tantos que se foram, decide ficar. Se for o tempo da migração, nada se perde pra sempre. Pelo contrário, quando a mágica é real, conserva-se naquela porção gostosa do amor que sobrevive após o grosso do sentimento findar. Encanto é isso, a livre aproximação de alguém que tem toda a liberdade de quando bem entender, partir. Melhor ainda, encanto é a morada sem grades do amor, que permite o voo para jardins mais floridos – porém, é muito mais convidativa a doce e livre permanência.